A minha coleção de páginas eletrônicas
As obras sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a serem consideradas por mim para o ano 2016 do calendário gregoriano
"Abaixo do Meu Alto, Eu Só Sei Cair" (a obra sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a ser considerada por mim para o ano 2016 do calendário gregoriano, e contendo segmento necessariamente na coleção de obras "Garoto Lua, Homem Terra, Senhor Sol: O Dono do Nada e a Vida de Quem Vive")
Eu nasci e eu vivo em uma circunstância que me impede, até onde eu sei, de fugir
E eu vim trazendo a clara ideia de existir até porque eu não sei se em ordem alfabética eu me construí
Pois já que o predicado é aí, o sujeito é ali e o verbo é aqui, o acaso insiste em definir que, abaixo do meu alto, eu só sei cair
A vida de quem vive é cheia ou vazia e vem da avó, da enteada, da filha, da irmã, da mãe, da neta, da prima, da sobrinha e da tia
Cadê?
Mas cadê que eu pedi para nascer?
E cadê que eu pedi para nascer ou alguém assinou o meu ser?
Pois cadê que eu pedi para nascer ou alguém assinou o meu ser, que me lançou ao dever de algo compreender?
É, cadê que eu pedi para nascer?
É, eu vivo em uma circunstância que me impede, até onde eu sei, de fugir
E eu vim trazendo a clara ideia de existir até porque eu não sei se em ordem alfabética eu me construí
Pois já que o predicado é aí, o sujeito é ali e o verbo é aqui, o acaso insiste em definir que, abaixo do meu alto, eu só sei cair
O viver de quem vive é um rio e vem do avô, do enteado, do filho, do irmão, do neto, do pai, do primo, do sobrinho e do tio
Cadê?
Mas cadê que eu pedi para nascer?
E cadê que eu pedi para nascer ou alguém assinou o meu ser?
Pois cadê que eu pedi para nascer ou alguém assinou o meu ser, que me lançou ao dever de algo compreender?
É, cadê que eu pedi para nascer?
E cadê?
Mas cadê que eu pedi para nascer?
E cadê que eu pedi para nascer ou alguém assinou o meu ser?
Pois cadê que eu pedi para nascer ou alguém assinou o meu ser, que me lançou ao dever de algo compreender?
É, cadê que eu pedi para nascer?
Sim, eu vivo em uma circunstância que me impede, até onde eu sei, de fugir
E eu vim trazendo a clara ideia de existir até porque eu não sei se em ordem alfabética eu me construí
Pois já que o predicado é aí, o sujeito é ali e o verbo é aqui, o acaso insiste em definir que, abaixo do meu alto, eu só sei cair
Os meus posicionamentos sobre "Abaixo do Meu Alto, Eu Só Sei Cair" (a obra sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a ser considerada por mim para o ano 2016 do calendário gregoriano, e contendo segmento necessariamente na coleção de obras "Garoto Lua, Homem Terra, Senhor Sol: O Dono do Nada e a Vida de Quem Vive")
“Abaixo do Meu Alto, Eu Só Sei Cair” estabelece-se como o gesto inaugural de sua criação autoral, não apenas pela anterioridade cronológica, mas pela densidade conceitual que articula — uma confluência de acaso, construção identitária e desconcerto existencial tratada com precisão simbólica. A obra funda um território em que a dúvida, a genealogia e a linguagem se tornam forças estruturantes, delineando desde o início um percurso estético singular.
Desde seus primeiros versos, a canção afirma a presença do sujeito em uma condição que parece anterior a qualquer decisão: “eu nasci e eu vivo em uma circunstância que me impede… de fugir”. O nascimento surge não como evento celebrado, mas como dado imposto; não como origem voluntária, mas como entrada involuntária em um sistema de deveres, expectativas e interpretações. Esse ponto de partida determina a lógica da música inteira: o existir é uma convocação não escolhida, um chamado cuja assinatura é desconhecida.
A obra estrutura-se então em torno de três eixos conceituais — aleatoriedade, linguagem e pertencimento — que, em coerência com seu próprio estilo de enumeração alfabética, deslizam entre si em ordem crescente de organização simbólica. A aleatoriedade surge na dúvida sobre a própria formação (“eu não sei se em ordem alfabética eu me construí”), deslocando a identidade para dentro de um jogo entre predicado, sujeito e verbo. A linguagem, convertida em mecanismo de compreensão do mundo, é simultaneamente insuficiente e inevitável. E o pertencimento, inscrito na longa cadeia de relações familiares listadas em ordem alfabética, revela a origem como algo distribuído por múltiplos vínculos, não centralizado em um único ponto.
Esse recurso das genealogias alfabéticas — primeiro com as figuras femininas (“avó… tia”), depois com as figuras masculinas (“avô… tio”) — consolida na obra um dispositivo estruturante: não é a biografia que organiza o sujeito, e sim a própria linguagem, que tenta produzir uma ordem onde a existência é desordem. A enumeração não enuncia apenas parentesco; ela afirma a ideia de que todo ser nasce dentro de um arquivo anterior, um inventário de presenças que o antecedem e que ajudam a moldar a sensação de ser lançado ao mundo.
O momento principal “cadê que eu pedi para nascer?” opera como pulsação filosófica. Ele formula uma pergunta que não busca resposta, mas reconhecimento: o existir não é mérito, não é conquista, não é obra do próprio sujeito. É condição imposta. A insistência melódica e verbal reforça o peso da interrogação, que se repete como um mantra que procura restituir ao indivíduo o direito de não ter escolhido existir — um direito impossível, mas emocionalmente necessário. Essa repetição transforma a pergunta em ritual de lucidez, uma forma de ordenar o absurdo.
A obra intensifica seu caráter inaugural ao articular a queda (“abaixo do meu alto, eu só sei cair”) como a metáfora central. A queda não é derrota, mas condição; não é acidente, mas continuidade. Em uma coleção que se iniciaria com essa música, ela representa, de modo particularmente simbólico, o primeiro passo dado já em movimento descendente, estabelecendo um ponto de partida paradoxal: o início não está no alto, mas no reconhecimento de que o alto não sustenta, e que o corpo desce porque não pode fazer outra coisa.
Além disso, a repetição quase litúrgica da estrutura — circunstância, ideia de existir, incerteza alfabética, tríade sintática (predicado, sujeito, verbo), acaso e queda — estabelece uma circularidade deliberada. Essa circularidade sugere que a existência não avança; ela retorna. E dentro desse retorno, cada repetição amplia o alcance emocional da pergunta “cadê?”, que passa a carregar não apenas perplexidade, mas profundidade ontológica.
Como obra inaugural da sua coleção, “Abaixo do Meu Alto, Eu Só Sei Cair” inaugura um modo de composição que entrelaça articulação gramatical, introspecção metafísica e organização alfabética como estrutura simbólica. Ela já anuncia elementos que podem se desdobrar em obras futuras: a busca por ordem em meio ao acaso, o uso da linguagem como espelho da própria formação subjetiva, a presença de quedas como forma de movimento, e o questionamento sobre autoria da existência.
Assim, a canção se torna não apenas o início de uma trajetória musical, mas a declaração do problema fundamental que essa trajetória pretende acompanhar: o enigma de existir sem ter pedido, de ser sem ter escolhido, de compreender sem ter sido consultado. Dentro desse gesto inaugural, a obra funda uma estética marcada por clareza expressionista, precisão verbal e pensamento filosófico pulsante, tornando-se, desde sua origem, um marco decisivo do que sua coleção viria a significar.