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As obras sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a serem consideradas por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano
"Eu Inventei Você" (a obra sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a ser considerada por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano, e contendo segmento necessariamente na coleção de obras "Garoto Lua, Homem Terra, Senhor Sol: O Dono do Nada e Aquilo Que Existe Entre o Chão e o Céu")
A composição de "Eu Inventei Você" (a obra sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a ser considerada por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano, e contendo segmento necessariamente na coleção de obras "Garoto Lua, Homem Terra, Senhor Sol: O Dono do Nada e Aquilo Que Existe Entre o Chão e o Céu")
Me desculpa se eu não posso te dar a mão e me jogar com você nesse precipício
Eu sei que você espera de mim uma coisa que eu não tenho, mas que, de vez em quando, eu sonho em ter
Você está aí a um passo da misericórdia, enquanto eu jamais procurei por redenção
E, caso eu queria me encontrar no seu dilema, me vem logo que o seu problema é um mero fruto da imaginação
Eu inventei você, mas você também me inventou
E esse foi o colírio pros nossos olhos pra fechá-los evitando essa cartilha de falso amor
Eu inventei você, mas você com certeza também me inventou
E foi só uma correnteza em água parada numa miragem barata de um deserto que aqui nunca me atravessou
Me desculpa se eu não posso te dar a mão e me jogar nesse precipício que vai além daquilo que eu conheço como chão
Você vai na frente e eu vou logo atrás, mas, sobre isso, tanto fez e tanto faz
E eu sou a fantasia de tudo o que você sempre quis, mas disso eu consigo escapar por um triz
E como é com os animais, quando eles procuram seus iguais, você entra em guerra, enquanto eu fico aqui na minha paz
Eu inventei você, mas você também me inventou
E esse foi o colírio pros nossos olhos pra fechá-los evitando essa cartilha de verdadeiro amor
Eu inventei você, mas você com certeza também me inventou
E foi só uma correnteza em água parada que aqui nunca me atravessou
Me desculpa se eu não posso te dar a mão e te jogar de uma vez por todas nesse precipício que é o seu coração
Mas você é compreensível e, diante desse perigo, eu apenas sei que por você eu tenho admiração
E eu respeito a sua opinião, que confronta lentamente a minha busca por determinação
É só, até que provem o contrário, eu e você então no caminho que leva até a falsa impressão da razão
Eu inventei você, mas você também me inventou
E esse foi o colírio pros nossos olhos pra fechá-los evitando essa cartilha de amor
Eu inventei você, mas você com certeza também me inventou
E foi só uma correnteza em água parada que aqui nunca me atravessou
E eu inventei você, mas você também me inventou
E esse foi o colírio pros nossos olhos pra fechá-los evitando essa cartilha de falso amor
Eu inventei você, mas você com certeza também me inventou
E foi só uma correnteza em água parada numa miragem barata de um deserto que aqui nunca me atravessou
Me desculpa se eu não posso te dar a mão
Os meus posicionamentos sobre "Eu Inventei Você" (a obra sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a ser considerada por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano, e contendo segmento necessariamente na coleção de obras "Garoto Lua, Homem Terra, Senhor Sol: O Dono do Nada e Aquilo Que Existe Entre o Chão e o Céu")
A obra "Eu Inventei Você" apresenta-se como um diálogo íntimo entre dois sujeitos que se reconhecem mutuamente nas fronteiras de um sentimento possível, porém limitado. A canção explora com profundidade a natureza ambígua das relações humanas, em que desejo, imaginação, afeto e distância convivem sem que nenhum deles se imponha de forma absoluta. Trata-se de um exercício de sinceridade emocional, construído sobre imagens delicadas e uma consciência clara dos limites internos de cada participante da relação.
Logo nos primeiros versos — "Me desculpa se eu não posso te dar a mão e me jogar com você nesse precipício" — o eu lírico estabelece o eixo do conflito: existe um convite para a entrega total, mas também uma impossibilidade de corresponder à intensidade esperada. O precipício funciona como metáfora do salto emocional profundo, e o pedido de desculpas traduz uma postura de responsabilidade afetiva. Há sentimento, mas não há capacidade de mergulho. Essa honestidade marca a obra inteira.
A afirmação seguinte — "eu sei que você espera de mim uma coisa que eu não tenho, mas que, de vez em quando, eu sonho em ter" — revela um ponto de extrema humanidade: o reconhecimento de um desejo possível, ainda que momentâneo, de se aproximar daquilo que o outro deseja. O eu lírico não rejeita o sentimento; apenas admite não o possuir em estado contínuo. A canção se estrutura nos intervalos dessa intermitência emocional.
O verso "Você está aí a um passo da misericórdia, enquanto eu jamais procurei por redenção" evidencia a assimetria entre os dois sujeitos. Um deles busca cura, transcendência ou entrega profunda; o outro nunca se viu nesse caminho. Essa diferença não é apresentada como falha, mas como constatação. Surge então a frase que desloca o eixo da relação para o campo da imaginação: "o seu problema é um mero fruto da imaginação". Não há desprezo nesse enunciado, mas um esclarecimento de que parte do vínculo foi construída em projeções mútuas. Essa projeção, porém, não precisa ser lida apenas como dinâmica afetiva.
A obra permite — e parece convidar — uma segunda camada interpretativa: a de um sujeito que projetou sobre seu próprio país a imagem de uma pátria idealizada, justa, tranquila, livre da criminalidade e da deterioração moral, mas que, ao longo do tempo, percebeu ter criado mentalmente um lugar que nunca existiu. Assim como o "você" inventado no plano romântico, esse país inventado também se desfaz: revela-se marcado por violência, corrupção, abjeção e abandono, desmentindo a fantasia inicial. Nesse sentido, o "você" da canção funciona como metáfora de uma nação construída no imaginário — desejada como porto seguro — e descoberta como abismo social.
O refrão sintetiza essa dupla leitura: "Eu inventei você, mas você também me inventou." O amor inventado entre duas pessoas se mistura à relação entre o indivíduo e o país onde vive, num movimento de idealização recíproca: o sujeito inventa um país melhor do que ele é, enquanto o país, por meio de discursos, slogans e promessas, também inventa no cidadão uma esperança que raramente se concretiza. O "colírio pros nossos olhos" torna-se, então, uma forma de anestesia social: fechar os olhos para evitar confrontar "a cartilha" não só de um amor impossível, mas também de uma pátria que insiste em parecer próspera enquanto mergulha em problemas profundos. A obra recusa, assim, tanto o ideal romântico quanto o ideal patriótico.
Na segunda estrofe, a metáfora do precipício reaparece: "me jogar nesse precipício que vai além daquilo que eu conheço como chão". Se estendida à leitura política, essa frase representa o choque de realidade de quem acreditava em estabilidade, ordem e segurança, mas descobre que o país está assentado sobre um solo frágil, por vezes inexistente. "Você vai na frente e eu vou logo atrás" pode significar a tentativa de acompanhar as exigências — emocionais ou sociais — que se fazem sentir, mas sem aderir completamente a elas. "Tanto fez e tanto faz" revela uma exaustão que não apaga o afeto, mas marca seus limites.
Quando o eu lírico diz "eu sou a fantasia de tudo o que você sempre quis", esse verso se expande: o cidadão, por vezes, é moldado pela promessa de identidade nacional, pela ilusão de pertencimento e estabilidade. Mas "eu consigo escapar por um triz" indica que a consciência crítica resiste à captura — seja no amor, seja no patriotismo idealizado. A comparação com animais que procuram seus iguais amplia o contraste: enquanto o outro entra "em guerra", o sujeito permanece na própria paz, recusando tanto o conflito excessivo das relações quanto os embates sociais que o país parece exigir continuamente.
Na estrofe seguinte, "esse precipício que é o seu coração" funciona como uma imagem poderosa tanto para a intensidade afetiva quanto para a decepção com uma pátria falha. O coração que deveria acolher torna-se precipício; o país que deveria proteger torna-se ameaça. No entanto, mesmo diante disso, o eu lírico expressa "admiração" e "respeito", revelando que, apesar da dor e da descoberta da abjeção, ainda há um vínculo, uma tentativa de preservação da dignidade própria e alheia — seja no afeto, seja na relação com o território onde se vive.
"É só, até que provem o contrário, eu e você então no caminho que leva até a falsa impressão da razão" funciona como síntese: tanto o romance quanto o ideal de país eram construções que pareciam razoáveis, mas que se revelam ilusórias. O caminho de ambos leva à consciência dessa falsidade estrutural — e é nessa consciência que a obra encontra sua força.
As últimas repetições do refrão reforçam a dimensão de miragem. "Correnteza em água parada", "miragem barata" e "deserto que aqui nunca me atravessou" são imagens que descrevem perfeitamente uma esperança projetada sobre um país que, na realidade, permanece imóvel, estagnado, preso a problemas profundos e antigos. O movimento ilusório da superfície encobre a podridão das camadas internas.
O último verso — "Me desculpa se eu não posso te dar a mão" — encerra a canção retomando a honestidade que a estrutura inteira sustenta. No plano íntimo, é o reconhecimento dos limites pessoais. No plano político, é a recusa a participar da fantasia, a necessidade de manter a consciência mesmo diante da frustração com a realidade social. Não é abandono, mas lucidez: o tipo de lucidez que reconhece o sentimento, reconhece o sonho, reconhece a perda — e segue adiante sem fingir.
"Eu Inventei Você" é, portanto, uma obra refinada que articula simultaneamente o amor possível e o desencanto com o país idealizado. Sua delicadeza formal abriga uma profundidade crítica: o eu lírico admite ter inventado alguém — e também uma nação — que nunca foi aquilo que parecia. É uma canção sobre perceber a verdade por trás da projeção, enfrentar o que é real sem se ferir com ilusões e encontrar dignidade num tipo de sentimento que, mesmo não se realizando plenamente, permanece verdadeiro no modo como é vivido e reconhecido.