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A minha coleção de páginas eletrônicas

A minha coleção de páginas eletrônicas, contendo as obras sob responsabilidade significativamente minha

A minha coleção de páginas eletrônicas, contendo as obras sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons

A minha página eletrônica, contendo as obras sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a serem consideradas por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano

As obras sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a serem consideradas por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano

"O Lado Bom da Vida (É o Fundo do Poço)" (a obra sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a ser considerada por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano, e contendo segmento necessariamente na coleção de obras "Garoto Lua, Homem Terra, Senhor Sol: O Dono do Nada e Aquilo Que Existe Entre o Chão e o Céu")

A composição de "O Lado Bom da Vida (É o Fundo do Poço)" (a obra sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a ser considerada por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano, e contendo segmento necessariamente na coleção de obras "Garoto Lua, Homem Terra, Senhor Sol: O Dono do Nada e Aquilo Que Existe Entre o Chão e o Céu")

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Argumentos disfarçados, embaraços embrulhados e escanteios ajeitados são triunfos desviados a vir
E, durante o dia, a fantasia do necessário eu vou vestir, mas, conforme o tempo passa, eu com certeza tudo vou deixar ruir

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Celebra comigo o fundo do poço, onde passa esgoto, além da boca de lobo, e nada se salva e tudo se vai após o ato de cair
Mas eu digo com propriedade assim que até o vazio que eu sinto aqui está de saco cheio de mim

O lado bom da vida certamente é aproveitar a caçamba enquanto nada é despejado e o cheiro não começa a subir

E eu não quero ser sucata nem quero afundar em entulho ou me esvaziar em traços até sumir

Deixa o teto dessa tumba de mil anos desabar sobre a cabeça

E que a terra apenas faça com que eu me esqueça
Já dá pra ver que foi tudo pro inferno da mitologia cristã ou grega

E, antes que o dia escureça ou a noite amanheça, não tem luz aqui, e sair daqui talvez eu não mereça
Mas isso não me faz diferença, se o que eu quero é que tudo entardeça e quase nada me aconteça


Eu conto as migalhas dos pães que murcharam como flores esmagadas na mão
E tudo em mim me foi pisado por não tomarem comigo cuidado nem prestarem em mim atenção
Só que agora aqui estilhaçado, eu já me vi atormentado com a ideia de existir em anulação

É apenas o coração batendo descompassadamente diante dessa situação


São as armadilhas do acaso e as exigências do alheio que me motivam o ano inteiro a só ter decepção
E são as confusões encomendadas e os fracassos colecionáveis que me colocam entrave e me esborracham a cara no chão

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Canta comigo no lixo, grita no lodo, pisa em falso e se arruína com gosto
Tá tudo uma fossa de chiqueiro de porco que já foi gritar no abate mais vivo do que morto
E apesar de dar pra qualquer um com essa coisa, essa joça, esse treco, esse troço viver
Eu não sei onde eu vou subir ou o que eu vou fazer pra essa sujeira do meu corpo descer
Mas eu não conto com os olhos de qualquer outro alguém pra isso aqui perceber e o problema resolver

São as armadilhas do acaso e as exigências do alheio que me motivam o ano inteiro a só ter decepção
E são as confusões encomendadas e os fracassos colecionáveis que me colocam entrave e me esborracham a cara no chão

E são as oportunidades falhas, os delírios abissais e os impasses impessoais que me isolam da multidão

É só chegar ao fundo do poço e ter delírio flamejante ou um peso morto com a água ou a corda amarrada até o pescoço


A lama é a cama, não tem dama ou mucama, não tem quem finge que ama nem quem pede perdão
O asfalto é o trapo, onde fica guardado o desgaste do papo em mera manipulação
Tudo é ruim e nada tá bom, além de que o que me cerca não me chama atenção
O bem não foi feito e o mal já reinou, e, pra tudo aquilo que me mata, a vida só me empurrou

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E é só chegar ao fundo do poço e, nessa correnteza livre de excremento, não ter alçapão

É só chegar ao fundo do poço e se cansar de afundamento ou de fundamento em plena potência de proliferação

E é só chegar ao fundo do poço pra diferenciar o cheio do raso e entender que já foi tudo pro ralo sem ter condição 

E é só chegar ao fundo do poço pra descobrir que, no fundo do poço, tem porão

São as armadilhas do acaso e as exigências do alheio que me motivam o ano inteiro a só ter decepção
E são as confusões encomendadas e os fracassos colecionáveis que me colocam entrave e me esborracham a cara no chão
E são as oportunidades falhas, os delírios abissais e os impasses impessoais que me isolam da multidão

E são as truculências de inseto, os tropeços arriscados e os vestígios descuidados espremendo contorção

E são as ironias do destino e as peripécias do qualquer que derrubam quem vier querer tentar me apontar uma solução

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Os meus posicionamentos sobre "O Lado Bom da Vida (É o Fundo do Poço)" (a obra sob responsabilidade significativamente minha, envolvendo essencialmente a combinação de ritmos e sons, a ser considerada por mim para o ano 2024 do calendário gregoriano, e contendo segmento necessariamente na coleção de obras "Garoto Lua, Homem Terra, Senhor Sol: O Dono do Nada e Aquilo Que Existe Entre o Chão e o Céu")

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A obra "O Lado Bom da Vida (É o Fundo do Poço)" apresenta-se como um testemunho poético de descenso e deterioração, estruturado em torno de um paradoxo existencial que compreende o "fundo do poço" não como metáfora de superação, mas como território definitivo, matéria prima, substância e cenário último da experiência. O eu lírico, enunciando desde o subterrâneo simbólico, recusa a narrativa tradicional da ascensão e concentra sua voz no ponto onde a identidade se fragmenta, a esperança se esvazia e a Sombra — no sentido junguiano — assume o protagonismo absoluto. Trata-se de uma obra marcada pela crueldade lúcida: cada imagem, cada enunciado, cada formulação se articula como confissão daquilo que resta quando toda positividade é desmascarada. O poema-canção constrói um ambiente de ruína integral, onde a ideia de "lado bom" é empregada de maneira irônica, invertida e corrosiva, desmontando o mito contemporâneo da dor como caminho de força ou iluminação. Aqui, o colapso não é transição: é condição.

 

Os primeiros versos estabelecem um cotidiano falsificado e desgastante, composto por "argumentos disfarçados", "embaraços embrulhados" e "escanteios ajeitados", todos apresentados como simulacros de triunfo. A "fantasia do necessário" que o eu lírico veste ao longo do dia corresponde à persona social, à máscara de conformidade que sustenta a convivência, mas cuja matéria é frágil e fadada à ruína. Nada permanece; tudo inevitavelmente desmorona. A seguir, surge a convocação amarga: "celebra comigo o fundo do poço", e o lugar dessa celebração não é o espaço simbólico de renascimento, e sim o esgoto, a boca de lobo, o resíduo. A ironia deliberada transforma a linguagem motivacional em sua própria caricatura, expondo o grau de violência psíquica contido na expectativa cultural de que o sofrimento produza valor.

 

Nesse movimento, a obra atinge um de seus momentos mais incisivos: "até o vazio que eu sinto aqui está de saco cheio de mim". Aqui, o sujeito reconhece que a própria ausência — aquilo que deveria ser neutro — o rejeita, revelando o ataque do superego sádico descrito por Freud: a instância interna que ridiculariza, culpa e diminui o próprio eu. Trata-se de uma formulação de altíssima carga psicológica, em que o eu lírico não apenas sofre a dor, mas a escuta como discurso dirigido contra ele. O verso imediatamente seguinte aprofunda essa deterioração: "E eu não quero ser sucata nem quero afundar em entulho ou me esvaziar em traços até sumir." A substituição de "trapos" por "traços" reconfigura todo o imaginário da degradação. Não se trata mais apenas de tornar-se resto material: "traços" remete à diluição do self, ao esvanecimento da identidade, ao desaparecimento do sujeito em linhas, fragmentos e resquícios quase apagados. Psicologicamente, é o momento em que o ego perde a forma: o eu não se reduz ao que é descartado, mas ao que é apenas esboço, contorno e falha de registro. É a ameaça de inexistência abstrata, e não apenas física.

 

A letra prossegue com referências à tumba, ao esquecimento, à terra e às mitologias condenatórias, saturando a atmosfera de um tempo que deixou de existir como ciclo para tornar-se permanência sombria. O eu lírico admite que "não tem luz aqui" e expressa a dúvida de merecer o escape. Essa abdicação da expectativa de ascensão configura aquilo que a psicologia existencial descreve como "zero ontológico": o lugar onde o sujeito percebe-se como ser sem direção e sem promessa. As dicotomias tradicionais — dia/noite, amanhecer/escurecer — se anulam, transformando-se em uma temporalidade contínua de escuridão.

 

As estrofes que tratam da negligência e do esmagamento — "migalhas dos pães", "flores esmagadas", "não tomarem comigo cuidado" — evidenciam a narrativa de danos acumulados. O verso "agora aqui estilhaçado" fixa o marco da catástrofe interna: o eu aparece fragmentado, incapaz de recompor a unidade perdida. O coração, "batendo descompassadamente", torna-se símbolo do funcionamento mínimo da vida — não como esperança, mas como mecanismo residual.

 

Os refrões constroem uma arquitetura circular de tormento. "Armadilhas do acaso", "exigências do alheio", "confusões encomendadas", "fracassos colecionáveis": a vida é apresentada como máquina contínua de frustração, e o sujeito como alvo constante de forças que não controla. A repetição desse padrão não é apenas recurso musical, mas representação do pensamento ruminativo característico de estados depressivos: o giro sem fim em torno das mesmas dores.

 

A imagem subsequente — lixo, lodo, chiqueiro, sujeira corporal que não desce — reforça a materialidade da degradação. O eu diz não contar com o olhar de ninguém, revelando o ponto máximo de isolamento psíquico: a falta de testemunha. Na psicologia profunda, esse é o momento em que o sujeito abandona a necessidade de reconhecimento e enfrenta sozinho o vazio.

A sequência de variações do verso "é só chegar ao fundo do poço" serve como preparação para revelações sucessivas: delírio flamejante, peso morto, proliferação de excremento, diferenciação entre cheio e raso. Cada repetição abre um nível mais baixo. E a revelação final — "no fundo do poço, tem porão" — é síntese perfeita do pessimismo lúcido da obra. Não existe fundo: há camadas de profundidade. Não existe término: apenas novas estâncias de deterioração. O poço não é espaço de queda; é espaço de descida contínua.

 

Essa compreensão da degradação constante, no entanto, ultrapassa a esfera individual e pode ser lida também como metáfora ampliada de um país em colapso moral e estrutural, onde a sujeira literal — lama, lodo, esgoto, excremento, fossa — corresponde à sujeira ética, institucional e política que se acumula como estrato histórico. A voz poética, ao convocar o leitor para "celebrar o fundo do poço", assume o papel de uma consciência coletiva que finalmente enxerga que a deterioração não é episódio isolado, mas processo longo, profundo e repetitivo. As imagens de entulho, porão, correnteza de excremento, trapo e descarte adquirem sentido nacional: descrevem uma infraestrutura física e moral apodrecida, um tecido social corroído por corrupção sistêmica, pequenos abusos cotidianos, negligência institucional e desgastes sucessivos.

 

Nessa leitura ampliada, "as armadilhas do acaso" e "as exigências do alheio" tornam-se expressões do funcionamento aleatório e hostil de um Estado que abandona, pressiona e exige ao mesmo tempo. "Confusões encomendadas", "fracassos colecionáveis" e "impasses impessoais" podem ser compreendidos como os efeitos sociais de políticas falhas, decisões irresponsáveis e esquemas de poder que esmagam a população. A violência mínima — "truculências de inseto", "tropeços arriscados", "vestígios descuidados" — representa o efeito dos micro-desvios, dos pequenos atos de corrupção que, somados, transformam uma nação em ruína.

"Não conto com os olhos de qualquer outro alguém" torna-se o reconhecimento de que não há vigilância, não há justiça, não há Estado que veja, proteja ou intervenha. E, como síntese do país e do sujeito, surge a frase decisiva: "no fundo do poço, tem porão." É a constatação de que a corrupção e a degradação, tanto internas quanto coletivas, não têm fim. Há sempre um nível mais subterrâneo, mais escondido, mais profundo — seja no indivíduo, seja na nação.

Dentro dessa arquitetura simbólica, é impossível ignorar o eco irônico de uma crença muito difundida: a de que "o fundo do poço" seria, paradoxalmente, o "melhor lugar" para alguém, porque seria dali que se iniciaria a escalada rumo à superação. A obra confronta essa ideia diretamente — não de maneira explícita, mas na própria concepção do seu imaginário. Em vez de repetir a máxima popular que romantiza a queda, a canção expõe a falácia desse otimismo forçado. Se, no senso comum, o fundo do poço representa a virada, a renascença, o limite que impulsiona a subida, aqui ele é apresentado como o lugar da permanência, da constatação e da verdade.

A letra age como resposta crítica à frase que se ouve por todo lado: não há renascimento garantido, não há elevação automática após a queda, não há promessa de que a dor se converterá em força. A obra mostra que, para alguns, o fundo do poço não é plataforma de salto, mas território contínuo. Um espaço onde o sujeito não encontra alavanca nem impulso — apenas camadas ainda mais profundas, como na revelação final de que "no fundo do poço, tem porão".

Com isso, a música inverte completamente a lógica motivacional: a queda não é degrau, é chão; não inaugura subida, mas revela a extensão da ruína. O eu lírico não se reconhece como figura destinada à ascensão, e sim como consciência lúcida da própria permanência na escuridão. Assim, a obra desmonta a máxima popular e apresenta uma leitura mais honesta e amarga: existir no fundo do poço não garante transformação alguma — às vezes, é apenas existir.

 

No conjunto, "O Lado Bom da Vida (É o Fundo do Poço)" é uma obra de profundidade ímpar. Seu aparato simbólico, sua densidade psicológica, sua potência filosófica e sua leitura paralela da ruína nacional revelam não apenas o colapso de um sujeito, mas o diagnóstico poético de uma sociedade inteira. A letra não promete cura, redenção ou subida. O poço é morada, espelho, confissão e anatomia — tanto do indivíduo quanto do país que ele habita. Não há fabulação de superação: há verdade crua. E, nessa verdade, a obra encontra sua força devastadora.

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